A fábula que explica a reeleição de Lula
Por: Rogério Perestelo
O segundo turno das eleições de 2026 foi uma representação real da fábula da tartaruga e da lebre.
De um lado, a Lebre
Após a vitória no primeiro turno, a direita foi tomada pela soberba, com a sensação de que a eleição já estava ganha. Chegamos ao ponto de Nikolas Ferreira publicar vídeo sobre Haddad desempregado, como se a disputa estivesse decidida.
A soberba foi além: influenciadores como Pablo Marçal, Chief, Bilinsky e Chiquini passaram a atacar eleitores de Renan Santos, inclusive chamando-os de N4z1. Marçal chegou a dizer: “Vocês que votaram no Renan, votem nulo, enfiem esse voto onde vocês quiserem”.
Esse tipo de postura pode ter levado eleitores de Renan a anular o voto ou até votar em Lula por indignação. Em vez de conquistar esses eleitores, parte da direita preferiu hostilizá-los.
"A lebre tinha vantagem, mas se distraiu comemorando. A tartaruga, por sua vez, continuou caminhando."

Outro fator foi o histórico de suspeitas de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro e sua dificuldade em responder às acusações nos debates, recorrendo frequentemente ao argumento “E o Lula?”, "Ain... mas é que o Lula fez pior!".
O brasileiro que não idolatra políticos não aceita necessariamente votar em alguém que considera corrupto só porque o adversário também é. O discurso do “menos pior” não cola. Para alguns, a alternativa foi simplesmente não comparecer às urnas.
Do outro lado, a Tartaruga
A esquerda, que tomou um susto com o resultado do primeiro turno, entendeu rápido que precisava reagir, explodir e dar o máximo de gás até o final. Enquanto parte da direita comemorava antes da hora, a esquerda (que tem a máquina na mão) intensificou a mobilização, utilizou tudo ao seu alcance para buscar votos, inclusive entre os eleitores que haviam se abstido.
Enquanto Pablo Marçal debochava dos eleitores de Renan, José de Abreu fez um texto pedindo desculpas ao MBL. Isso não é sobre Renan ou MBL, mas sobre a postura que cada lado teve no segundo turno: Enquanto um lado deu a campanha como ganha, o outro lutou com força total utilizando tudo ao seu alcance para conseguir votos.
Embora os números gerais de abstenção tenham sido semelhantes, isso não significa que as mesmas pessoas deixaram de votar nos dois turnos. Mudanças na participação e na escolha dos eleitores podem ter sido decisivas para o resultado.
A tartaruga não precisava conquistar todos os eleitores: bastava avançar de maneira consistente enquanto a lebre desperdiçava sua vantagem.
Houve fraude?
Uma decisão do ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinando a prorrogação do horário de votação até as 19h teria provocado tumulto e desconfiança, especialmente diante das dificuldades operacionais para implementar a medida em seções que já estavam encerrando os trabalhos.
O episódio alimentou suspeitas legítimas que merecem ser examinadas com base em evidências. Entretanto, dois fatos enfraquecem a tese de que a decisão teria sido responsável por alterar o resultado: a campanha de Flávio Bolsonaro também teria solicitado a prorrogação, e o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, reconheceu o resultado e afirmou que a determinação não o comprometeu, considerando que o número de votos computados após as 17h foi numéricamente irrelevante.
Desconfiar é legítimo; transformar desconfiança em certeza, sem provas, é outra coisa. Questionamentos sobre uma eleição precisam ser sustentados por evidências concretas, não apenas por circunstâncias que parecem suspeitas.
Conclusão: a direita perdeu para si mesma?
A reeleição de Lula não precisa ser explicada por uma única causa. A soberba de parte da direita, a dificuldade de Flávio Bolsonaro em ampliar sua aceitação, a hostilidade contra eleitores que poderiam migrar para seu lado e a capacidade de mobilização da esquerda formam um conjunto de fatores plausíveis para compreender o resultado.
A principal lição é que eleição não se vence apenas com uma base fiel. É preciso conquistar quem não gosta do adversário, mas também não confia em você. Quando a militância confunde lealdade com obediência e trata qualquer divergência como traição, transforma aliados em adversários e eleitores indecisos em pessoas sem motivo para comparecer às urnas.
A lebre tinha vantagem, mas se distraiu comemorando. A tartaruga, por sua vez, continuou caminhando.
Se a direita quiser vencer as próximas eleições, precisará entender que combater a esquerda não é suficiente: também terá de superar seus próprios erros, abandonar a arrogância e apresentar candidatos capazes de convencer quem não aceita idolatrar políticos. Afinal, votos não são propriedade de partido, líder ou influenciador. São conquistados — e podem ser perdidos.


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